O DESAFIO DA FEBRE AMARELA
A febre amarela constituiu durante quatro séculos
um permanente desafio à medicina.
Desconhecida na antiguidade, sua história
coincide com a descoberta do Novo Mundo. Apesar da controvérsia
existente sobre sua origem, tudo indica tratar-se de uma doença
autóctone da América Central.
A denominação de febre amarela foi
empregada pela primeira vez por Griffith Hughes, em seu livro Natural
History of Barbadoes, publicado em 1750, em alusão às
duas manifestações clínicas mais características
da enfermidade: a febre e a icterícia. Antes, a doença era
conhecida pelos mais variados nomes.
A febre amarela chegou ao Brasil no século
XVII, trazida por via marítima em embarcações procedentes
das Antilhas. A primeira epidemia ocorreu em Pernambuco, em 1685, e foi
tema de um dos três primeiros livros de medicina escritos no Brasil,
intitulado Tratado Único da Constituição Pestilencial
de Pernambuco, de autoria de João Ferreira da Rosa, publicado
em Lisboa em 1694.
Em 1686 a febre amarela irrompeu sob forma epidêmica
na Bahia, causando muitas vítimas conforme narra o historiador Rocha
Pitta em sua História da América Portuguesa, publicada
em Portugal em 1730.
No século XVIII não há registro
de epidemias de febre amarela no Brasil, a qual ressurgiu no século
XIX, tanto sob a forma endêmica como epidêmica.
A etiologia da febre amarela foi objeto das mais
variadas especulações. Antes da era microbiana, as mais disparatadas
causas foram apontadas, além de castigo divino e punição
dos pecados: eclipse do sol e da lua, condições climáticas,
falta de chuvas e de trovoadas, emanações provenientes da
decomposição de matéria orgânica, contaminação
da água por substâncias pútridas, indigestão,
exposição excessiva ao calor no verão, fadigas do
corpo e do espírito etc.
Em relação ao modo de transmissão
havia duas doutrinas que dividiam as opiniões: a que admitia o contágio
direto de pessoa a pessoa e a que não admitia esse contágio.
Ambas contavam com defensores de prestígio e renome.
Após os trabalhos iniciais de Pasteur e Koch
demonstrando a natureza infecciosa de muitas doenças, era natural
que também se procurasse um micróbio para a febre
amarela.
Em 1878, em Filadélfia, nos Estados Unidos,
Richardson descreveu uma bactéria que seria a causadora da febre
amarela, denominando-a Bacteria sanguinis febris flavae.
Freire Júnior, no Brasil, em 1880, responsabilizou
um parasito por ele denominado Cryptococcus xanthogenicus, e chegou
a preparar uma vacina com a qual inoculou 2.418 pessoas. Foi, portanto,
um precursor da idéia de combater a febre amarela por meio da vacinação
preventiva. A vacina não demonstrou eficácia e o Cryptococcus
xanthogenicus em realidade não existia; os supostos germes eram
apenas hemácias alteradas, conforme comprovou Araújo Goes
em 1885.
Outros possíveis "micróbios" responsáveis
pela febre amarela foram descritos por diferentes pesquisadores, tais como
o Bacillus x havanensis, por Sternberg nos Estados Unidos, em 1887,
o Bacillus icteroides, por Sanarelli em Montevideo, em 1897, a Leptospira
icteroides, por Noguchi em Guayaquil, em 1918.
A idéia da transmissão pelo mosquito
ocorrera a Josiah Nott, nos Estados Unidos, já em 1848, e a Beauperthuy,
na Venezuela, em 1853. Este último autor, observando que a febre
amarela ocorria em cidades litorâneas, admitia que os mosquitos alimentavam-se
de restos de peixes e da fauna existente em pântanos, transmitindo
ao homem "sucos sépticos" que produziam hemólise.
No Brasil, Filogonio Utinguassu foi quem primeiro
defendeu a idéia da transmissão do agente da febre amarela
pelo mosquito, em sessão da Academia Imperial de Medicina de 27
de outubro de 1885. Sua comunicação não despertou
maior interesse.
Em Cuba, Carlos Finlay cedo se convencera de que
a transmissão se processava através de uma única espécie
de mosquito, o Culex fasciatus (Aedes aegypti). Na Conferência
Sanitária Internacional, realizada em Washington em 1881, Finlay
defendeu pela primeira vez o combate aos mosquitos como forma de prevenção
da febre amarela. Suas idéias não foram levadas a sério
(fig. 1).
Para comprovar sua teoria, logrou transmitir a doença
em cinco voluntários que se deixaram picar por mosquitos que haviam
sugado antes doentes de febre amarela. Comunicou sua experiência
à Academia de Ciências de Havana, que a acolheu com desinteresse.
No decurso de 19 anos, repetiu a experiência em 102 pessoas, tendo
conseguido a transmissão de formas benignas da doença em
várias delas. Em 1897 propôs ao Governo dos Estados Unidos
um plano detalhado para erradicar a febre amarela de Havana pelo combate
ao mosquito transmissor. Como das outras vezes, não teve êxito.
Somente em 1900, após o término da
guerra hispano-americana, o Serviço de Saúde do Exército
Americano interessou-se pelo problema em decorrência de mais de 200
óbitos por febre amarela ocorridos entre os seus soldados sediados
em Cuba. Foi nomeada uma Comissão, chefiada pelo major-médico
Walter Reed que, juntamente com James Carrol, Jesse Lazear e Aristides
Agramonte, deram início em Havana às experiências que
culminaram com a comprovação, em caráter definitivo,
do acerto da teoria de Finlay, de que a febre amarela não é
contagiosa e que sua transmissão se dá através do
mosquito por ele indicado. Jesse Lazear foi vítima de exposição
ao vetor e faleceu de febre amarela.
No Brasil, Emílio Ribas, então Diretor
do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, tomando
conhecimento dos trabalhos da Comissão Americana em Cuba, decidiu
iniciar em 1901 uma campanha de combate ao mosquito em Sorocaba, onde se
registrara uma epidemia no ano anterior, com mais de 2.000 casos notificados.
O mesmo foi feito em São Simão e Ribeirão Preto, onde
também haviam sido registrados casos de febre amarela (fig. 2).
Como ainda houvessem críticas e dúvidas
sobre a validade das experiências realizadas em Cuba, Emílio
Ribas decidiu repeti-las com algumas variantes em São Paulo, contando
para isso com a colaboração de Adolfo Lutz, Luiz Pereira
Barreto, Adriano de Barros e Silva Rodrigues. Os experimentos realizados
em voluntários, dentre os quais os próprios médicos
e três imigrantes italianos recém-chegados ao Brasil, foram
de tal ordem que até os mais cépticos ficaram convencidos
da não contagiosidade da febre amarela e da responsabilidade do
mosquito Stegomya fasciata (Aedes aegypti) na sua transmissão.
No século XIX a febre amarela grassava na
cidade do Rio de Janeiro sob forma endêmica, com surtos epidêmicos.
No período de 1850 a 1902 haviam sido registrados na antiga capital
federal, 58.063 óbitos por febre amarela (Odair Franco).
A campanha contra a febre amarela no Rio de Janeiro
é uma das páginas gloriosas da medicina brasileira, que consagrou
o nome de Oswaldo Cruz e projetou o nosso País no cenário
internacional. A epopéia de Oswaldo Cruz é bem conhecida
e não será aqui relembrada. O que, às vezes, deixa
de ser mencionado é que o Presidente Rodrigues Alves perdera uma
filha vítima de febre amarela, o que certamente deve ter contribuído
para o apoio que ele dispensou a Oswaldo Cruz.
Tinha-se a impressão de que a febre amarela
era uma doença essencialmente urbana, cujo transmissor estava adaptado
ao domicílio humano e, por isso, poderia ser erradicada. Verificou-se,
posteriormente, a existência de uma forma silvestre da febre amarela,
tendo como animais reservatórios os primatas, e como transmissores
outros flebótomos dos gêneros Aedes e Haemagogus.
Tornou-se evidente, portanto, a impossibilidade
de extinguir-se a febre amarela e surgiu o derradeiro desafio: a obtenção
de uma vacina que fosse eficaz e bem tolerada.
Desde 1901 já se sabia que o agente da febre
amarela deveria ser um vírus e não uma bactéria, pois
James Carrol conseguira transmitir a doença pela injeção
subcutânea do filtrado do soro sangüíneo de um enfermo.
A primeira vacina, após a comprovação
da transmissão vetorial, foi preparada por William Gorgas em Havana,
em 1901, a partir de mosquitos infectados. Foram inoculadas 18 pessoas,
das quais 8 adquiriram a infecção, com 3 óbitos. Estes
resultados levaram ao abandono da idéia da vacinação
com o mosquito.
Em 1927, Stokes demonstrou que era possível
infectar o macaco Rhesus com o vírus da febre amarela. A dificuldade
de obter e de trabalhar com esta espécie, entretanto, constituía
um entrave ao progresso dos estudos experimentais.
Em 1930, Max Theiler, um médico sul-africano
que se dedicava ao estudo da febre amarela nos Estados Unidos, conseguiu
infectar camundongos, injetando diretamente no cérebro desses animais
tecido hepático de macaco Rhesus infectado (fig. 3). O vírus
obtido de camundongos conferia imunidade ao macaco e ao homem, porém
não pôde ser usado como vacina por sua ação
neurotrópica. Algumas pessoas inoculadas com este vírus por
pesquisadores franceses morreram com encefalite.
Max Theiler e seus colaboradores da Fundação
Rockefeller passaram, então, a cultivar o vírus em embriões
de camundongos, dos quais antes se retirava o sistema nervoso e, a seguir,
em embriões de galinha também desprovidos de sistema nervoso.
Mantiveram vivo o vírus durante 3 anos, em sucessivas passagens
em embriões assim preparados e obtiveram um mutante conhecido por
17D, que se mostrou imunizante e sem qualquer risco para o homem.
Esta vacina foi testada em grande escala no Brasil
entre os anos de 1937 a 1940, com bons resultados. Em 1947,
durante a II Guerra Mundial, já haviam sido utilizadas em todo o
mundo 28 milhões de doses.
Max Theiler recebeu mui justamente o prêmio
Nobel de Medicina em 1951. Na ocasião, respondendo a um reporter,
disse muito modestamente; "É certo que trabalhamos arduamente, mas
também tivemos muita sorte".
Joffre M. de Rezende
Professor Emérito da Faculdade de Medicina
da Universidade Federal de Goiás
Membro das Sociedades Brasileira e Internacional
de História da Medicina
e-mail:jmrezende@mail.cultura.com.br
http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende
jan/2001